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A contribuição da psicoeducação no atendimento psicológico a pacientes com Transtorno Bipolar.

RESUMO

O Transtorno Bipolar (TB) é uma doença que impacta a esfera biopsicossocial do paciente, produzindo dificuldades interpessoais, educacionais e financeiras. A psicoeducação é uma intervenção psicoterapêutica que objetiva ensinar os pacientes sobre os fatores biopsicossociais que estão relacionados a doença. Sendo assim, o atendimento psicológico pode intervir positivamente no enfrentamento desses fatores, considerando a subjetividade de cada indivíduo e criando possibilidades de prevenção, adaptação e conscientização frente ao tratamento. Através do estudo de revisão narrativa, este artigo tem como objetivo apresentar a contribuição da psicoeducação no atendimento psicológico em pacientes com transtorno bipolar.

Palavras-chave: transtorno bipolar, psicoeducação, tratamento, atendimento psicológico.

 INTRODUÇÃO

O Transtorno Bipolar (TB) é uma condição psiquiátrica, “conhecido por sua cronicidade, complexidade e altos índices de morbidade e mortalidade, é uma das principais causas de incapacitação no mundo” (Menezes & Souza, 2011, p.996). Caracterizado por alterações de humor, que estão subdivididos em duas categorias: Tipo I, episódios maníacos e Tipo II, episódios hipomaníacos (DSM-V, 2014).

O TB é uma doença crônica que está associada a múltiplas doenças clínicas, tais como: sedentarismo, dieta inadequada, tabagismo, alterações metabólicas, doenças cardiovasculares e neurológicas (Gomes, 2016). Há também o impacto nos aspectos cognitivos e emocionais dos pacientes, causando isolamento social, podendo levar ao suicídio, comportamento este considerado de alta de prevalência nestes pacientes (Fernandes & Scippa, 2013). Por isso, a psicoeducação apresenta-se como uma importante técnica de intervenção no atendimento psicoterápico, já que esta fornece informações aos pacientes e seus familiares sobre “a funcionalidade ou não das suas reações comportamentais” (Oliveira, 2011), orientando-os no “manejo e enfretamento de sua doença (p. ex. fornecendo informações sobre sintomas, os fatores e a duração), bem como favorecer a adoção de um estilo de vida mais saudável e a melhoria da qualidade de vida” (Kühn, 2014, p. 19).

Segundo a Organização Mundial da Saúde (2015) a promoção da  saúde é o “processo de capacitar pessoas para que aumentem o controle sobre sua saúde e a aprimorem”. Comportamentos de saúde e mudança de comportamento são componentes importantes de iniciativas de promoção da saúde (Saúde Global, 2017, p.17).

Peron & Sartes (2015) salientam a importância da psicoeducação como maneira de educar e familiarizar o paciente em relação aos seus problemas, esclarecendo-o sobre as implicações e consequências do diagnóstico da doença, promovendo ações preventivas e promotoras de saúde.

A psicoeducação é uma técnica psicológica que pode ser aplicada em diferentes tipos de doenças, integrando tanto as psíquicas quanto as físicas, desse modo, o “desenvolvimento de projetos e programas de psicoeducação são considerados importantes para o trabalho de promoção da saúde (Lemes & Neto, 2017).

A intervenção psicoeducacional com portadores de doenças crônicas, tem se associado ao incentivo de estratégias de autocuidado, que estão relacionadas a anatomia, fisiologia e complicações da doença, farmacologia dos principais medicamentos utilizados no tratamento, gerenciamento de estresse e alimentação saudável (Losso et al., 2014).

Menezes & Souza (2012) referem, que o estudo que realizaram, envolvendo um grupo de psicoeducação com portadores de TB possibilitou o conhecimento das características da doença e a adesão ao tratamento, ocasionando uma aprendizagem grupal, onde uns se beneficiaram com as experiências dos outros, oportunizando mudanças positivas em suas vidas.

O presente artigo tem como objetivo coletar dados que apresente a contribuição da técnica psicoeducativa no atendimento psicológico a pacientes com transtorno bipolar.

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa de revisão narrativa em que foram utilizadas as bases de dados online PePSIC, SciELO, Google Acadêmico e BVS- Psi. Assim, inicialmente foi realizada uma busca sobre a produção do conhecimento referente a psicoeducação, tendo como objetivo identificar a importância desta no atendimento psicológico em pacientes com TB, referida em periódicos no idioma português e inglês. Na busca inicial foram considerados os títulos e os resumos dos artigos para a seleção de prováveis trabalhos de interesse a partir dos seguintes descritores: transtorno bipolar, psicoeducação, tratamento, atendimento psicológico.  

TRANSTORNO BIPOLAR (TB)

De acordo com o DSM-V (2014), o Transtorno Bipolar se caracteriza por alterações de humor, com episódios maníacos/hipomaníacos e depressivos, subdividido em dois tipos principais: o Tipo I, a elevação do humor é grave e persiste (mania), suas principais características são: sentimentos de grandiosidade; redução do sono; fala descontrolada; pensamento acelerado; fuga de ideias; distraibilidade; agitação psicomotora e envolvimento em atividades de riscos. O Tipo II, a elevação do humor é mais branda (hipomania), os sintomas apresentam menos intensidade e período de duração menor do que os episódios maníacos. Os sintomas depressivos, podem ser caracterizados por sentimento de tristeza; desesperança; choro constante; sentimento de culpa; humor deprimido, entre outros. Os sintomas depressivos podem estar presentes tanto nos episódios maníacos quanto hipomaníacos.

Segundo a American Psychiatric Association (APA, 2013), os episódios maníacos apresentam duração de uma semana ou mais, em que a perturbação do humor torna-se tão grave ao ponto de prejudicar o funcionamento social do indivíduo, apresentando características psicóticas. Já os episódios hipomaníacos, tem duração de aproximadamente quatro dias, em que as alterações de humor não são suficientemente graves ao ponto de necessitar internação hospitalar, como nos casos maníacos.

O transtorno bipolar apresenta prevalência semelhante entre homens e mulheres, os fatores genéticos são mais fortes e consistentes do que os fatores ambientais. A média de idade de início nos episódios maníacos é a partir dos 18 anos; nos episódios hipomaníacos pode começar no fim da adolescência ou a partir dos 25 anos, considerações especiais são necessárias para o diagnóstico em crianças (DSM-V, 2014).

O tratamento farmacológico é realizado com estabilizadores de humor, tais como:  o lítio, a clorpromazina, a carbamazepina, o divalproato e também antipsicóticos, como a risperidona; a olanzapina; a quetiapina; a ziprasidona; o aripiprazol, entre outros (Cheniaux, 2011).

O tratamento psicológico é considerado uma estratégia eficaz às rotinas terapêuticas dos pacientes com transtorno bipolar, pois aumenta a adesão ao tratamento medicamentoso, bem como o incentivo à obtenção de comportamentos que contribuam para a qualidade de vida (Gomes & Lafer, 2007; Batista, 2013; Costa et al., 2016).

 

PSICOEDUCAÇÃO

A intervenção psicoeducativa teve início em 1970, utilizando de dados teóricos da psicologia, educação, filosofia e medicina (Cole & Lacefield, 1982; Wood et al., 1999), através dela “os pacientes recebem informações em relação às sequelas cognitivas, fisiológicas e comportamentais das reações emocionais e como esses três componentes interagem” (Barlow e colaboradores, 2009, p. 235), podendo ser aplicada na compreensão ao adoecimento do indivíduo. Considerada uma “abordagem baseada em métodos experimentais e científicos, partindo do pressuposto de que as cognições gerenciam as emoções e os comportamentos” (Basco & Rush., 2005). Por ser um “processo educativo contínuo”, inclui profissionais de diferentes áreas, como psicólogos, médicos, nutricionistas, educadores físicos e enfermeiros (Losso et al., 2014).

A psicoeducação é uma das técnicas utilizadas pela abordagem Cognitivo-Comportamental, que tem como objetivo fornecer informações aos pacientes sobre o transtorno e/ou doença, sobre o tratamento farmacológico e seus efeitos colaterais, das dificuldades que estão associadas à doença, e de como manejar os sintomas que advém dela (Mussi et al., 2013; Nogueira et al., 2017). É uma modalidade de tratamento que possui algumas características que definem sua finalidade, tais como: limitada no tempo, estrutura diretiva, foco no presente e na resolução de problemas (Basco & Rush., 2005).

A técnica psicoeducativa pode ser utilizada nos seguintes contextos: cuidados paliativos, doenças crônicas, grupoterapia e saúde pública (Lemes & Neto, 2017). As informações que são passadas para educar o paciente, podem ser realizadas de diversas maneiras, como:  vídeos, áudios, panfletos, campanhas, folders, livros, filmes, entre outros (Basco e Rush., 2005).

Segundo Silva e Yassuda (2008), através da intervenção psicoeducativa, ocorrem ganhos cognitivos com pacientes em condições de doença crônica, possibilitando que estes sejam capazes de compreender as diferenças que envolvem as suas características pessoais e as características da doença crônica que precisam ser enfrentadas, contribuindo para o conhecimento das consequências, dos fatores desencadeantes e mantenedores da patologia (Caminha et al., 2003).

Existem várias maneiras de desenvolver a psicoeducação, seja com um paciente ou em grupo, desde que o profissional da saúde esteja habilitado, e embora não seja uma modalidade exclusiva da psicologia, lida com questões afetivas e emocionais, e por isso é necessário, que o profissional tenha uma experiência considerável (Menezes & Souza, 2011).

Para Lemes e Neto (2017), a psicoeducação é definida como uma técnica psicoterapêutica que tem como finalidade não a cura da doença, mas sim fornecer estratégias de enfrentamento, com o intuito de auxiliar o paciente a conviver da melhor forma possível com sua doença, minimizando possíveis prejuízos e desconfortos, podendo ser utilizada tanto em transtornos psicológicos quanto em doenças orgânicas, sendo aplicada por profissionais da saúde em pacientes e/ou familiares.

 

A CONTRIBUIÇÃO DA TÉCNICA PSICOEDUCATIVA NO ATENDIMENTO PSICOLÓGICO A PACIENTES TRANSTORNO BIPOLAR

O tratamento psicológico é considerado uma estratégia eficaz às rotinas terapêuticas dos pacientes com transtorno bipolar, pois é neste ambiente terapêutico, onde os pacientes sentem-se protegidos, acolhidos e recebem auxílio para suas demandas (Batista, 2013; Cavelagna, 2012; Gomes & Lafer, 2007). Na psicoterapia é necessário que a psicoeducação seja trabalhada de maneira individualizada, ou seja, respeitando a subjetividade de cada paciente, pois este possui limitações e particularidades (Wright et al., 2008).

Na intervenção psicológica individual em transtornos bipolares, quando o terapeuta utiliza de uma abordagem visivelmente psicoeducativa, ajuda o paciente a identificar os sinais habituais de reincidência (Batista, 2013; Gomes & Lafer, 2007). Com isso, a técnica psicoeducativa, serve para nortear alguns passos a serem seguidos com o paciente na intervenção psicológica, tais como: sentimentos e comportamentos diante da hospitalização; sua relação com a equipe; sua percepção sobre a doença e, como o paciente percebe seu futuro (Peron & Sartes, 2015). É recomendado que a introdução da psicoeducação seja realizada quando os pacientes com TB estiverem eutímicos, pois caso contrário, se o paciente estiver na fase maníaca, a psicoeducação não resultará efeito, pois nessa fase o paciente apresenta características, como distratibilidade, e alterações cognitivas (Batista, 2013).

Muitos pacientes com transtorno bipolar possuem insight empobrecido, senso crítico prejudicado e dificuldade para compreender e aceitar o transtorno, aspectos que podem contribuir para a baixa adesão ao tratamento, em parte, tais aspectos podem ser explicados pelo escasso fornecimento de informações a respeito da doença e de como tratá-la (Basco & Rush, 2005; Batista, 2013).

As intervenções psicoeducacionais são desenvolvidas para aumentar o conhecimento das pessoas e o seu o insight acerca de sua doença, em que este “pode ajudar a uma mudança de atitude relativamente à doença, de forma a fornecer-lhes estratégias de resolução de conflitos” (Degmecié et al 2007; Maldonado et al. 2009, p.344). Desta forma, as intervenções psicoeducacionais proporcionando reforço emocional, apoio psicológico e social, de forma a reduzir sentimentos de ansiedade e a intensificar sentimentos de confiança, potencializando a eficácia do tratamento (Degmecié et al 2007; Maldonado et al. 2009).

É importante que os aspectos psicossociais do paciente sejam levados em conta, pois os índices de recaída e não aderência são altos quando se utiliza somente a medicação, por isso é crucial que se utilize tratamentos voltados para o paradigma biopsicossocial, e também incluir o paciente e a família como co-responsável pelo tratamento (Menezes & Souza, 2011).

A psicoeducação é considerada uma intervenção psicossocial que promove a qualidade de vida e a adesão ao tratamento dos pacientes com transtorno bipolar, pois os ensina a identificar os sintomas e crises, com isso “promovendo a prevenção de recaídas” (Colom & Vieta2004), bem como contribui para o desenvolvimento do insight sobre a doença, e ajuda o paciente a lidar com o estigma que o transtorno acarreta (Batista, 2013; Gomes & Lafer, 2007).

Existem estudos contundentes, que afirmam que a trajetória do transtorno bipolar pode ser alterada por técnicas psicoterápicas de psicoeducação as quais objetivam aumentar o engajamento no tratamento e reduzir sintomas residuais, bem como, a prevenção de recaídas, diminuindo as hospitalizações, aprendendo a lidar com estresse, tornado o paciente mais proativo, e proporcionando uma melhor qualidade de vida (Menezes & Souza, 2012). Portanto, torna-se indispensável que os profissionais da área da saúde forneçam informações a respeito da doença e de como tratá-la, que são necessárias para que os pacientes apresentem comportamentos necessários para o controle da doença, diminuindo assim os sintomas psiquiátricos e aumentando a adesão ao tratamento (Batista, 2013).

A negação da doença, o receio dos efeitos colaterais e a falta de efetividade do tratamento medicamentoso são as principais atitudes apontadas pelos pacientes com TB frente a não adesão ao tratamento (Batista, 2013). Conforme Cavelagna (2012), a psicoeducação tem impacto positivo na vida dos pacientes com TB, pois amplia o conhecimento sobre a doença, com isso faz com que os pacientes tenham maior compreensão e aceitação do transtorno, promovendo a qualidade de vida, bem como a superação das limitações decorrentes do transtorno e/ou tratamento. Também tem demonstrado resultados positivos na melhora sintomática em ambos os episódios maníacos e depressivos (Batista, 2013).

No cotidiano dos pacientes com TB as dificuldades enfrentadas decorrentes da doença e/ou tratamento, são multifatoriais, tais como: efeitos colaterais dos medicamentos; dificuldade para realizar planos e desempenhar tarefas, como trabalhar, estudar, realizar o autocuidado; problemas de relacionamento interpessoal; sobrecarga para a família; limitações financeiras; fases depressivas; o preconceito/estigma, em que os pacientes tem uma imagem negativa do transtorno mental, referindo que as pessoas que o possuem são “loucas”, irracionais, mal quistas pela sociedade, consideradas perigosas (Cavelagna, 2012, Batista, 2013).

Portanto, uma das estratégias oferecidas pela Psicologia para lidar com essa demanda tem sido a psicoeducação (Basco e Rush, 2005), que é apontada como uma importante técnica que visa transformar fatores negativos experimentado por pacientes com transtorno bipolar e, empenhando-se em oferecer informações aos pacientes e familiares, sobre as características e a maneira  de tratar a doença (Menezes & Souza, 2012), aumentando “o comprometimento dos familiares, de forma a estabelecer uma relação cooperativa e uma aliança terapêutica, desta forma expandindo o seu conhecimento e compreensão da doença” (Maldonado et al. 2009, p.344). Contribuindo para que o paciente com transtorno bipolar perceba pequenas mudanças comportamentais, que podem ser indicativas de uma nova ocorrência, e desta forma responsabilize-se por tentar evitar situações, que possam desencadear novos surtos da doença tornando o tratamento mais efetivo (Menezes & Souza, 2012).

COMENTÁRIOS

O estudo pode concluir que a psicoeducação promove mudanças significativas aos pacientes com TB, pois através dos esclarecimentos sobre os sintomas da doença, bem como os efeitos colaterais do tratamento medicamentoso, os pacientes sentem-se motivados e comprometidos com o autocuidado, melhorando a qualidade de vida, a prevenção de recaídas.

A psicoeducação, aliada ao atendimento psicológico desempenha um papel fundamental na adesão ao tratamento de pacientes com TB permitindo que estes sintam-se acolhidos, assim estabelecendo uma relação terapêutica baseada na confiança e na resoluções de problemas.

AUTORA PSICÓLOGA NATIÉLLE DASSI

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